Bitcoin, um ativo ESG: Aspectos energéticos, sociais e tecnológicos.

A temática da sustentabilidade tem sido fortemente direcionada à mineração de bitcoin, mas o que poucos sabem é que esta é uma das indústrias mais ESG que existem.

Bitcoin, um ativo ESG: Aspectos energéticos, sociais e tecnológicos.

Introdução

A mineração de bitcoin tem sido objeto de intenso escrutínio e debate, especialmente em relação ao seu impacto ambiental. Este debate tem sido promovido inclusive por organizações internacionais que lutam por causas ambientalistas.

Muitos dos propagadores de conceitos errôneos sobre bitcoin ainda não tiveram a oportunidade de compreender sua tecnologia na totalidade, negando ou deixando de lado os benefícios de um sistema monetário descentralizado em relação a um baseado em dívida, crises bancárias e inflação descontrolada.

Por isso, este artigo visa desmistificar os equívocos predominantes e fornecer uma análise detalhada dos aspectos ESG (Ambientais, Sociais e de Governança) do bitcoin, com base no relatório da Deutsche Digital Assets, escrito por André Dragosch.

Neste material, entenderemos como a mineração de bitcoin é mal compreendida e como ela acaba sendo mais sustentável do que o sistema financeiro tradicional, o qual busca ultrapassar.

Entenderemos que as organizações ambientais deveriam se preocupar muito mais com os impactos negativos do sistema tradicional do que com a mineração de bitcoin, que hoje é benéfica para a sociedade e meio-ambiente.

Economia da Mineração de Bitcoin

A mineração de bitcoin envolve o processo de "hashing", onde os mineradores buscam aleatoriamente o hash correto que conecta o último bloco de transações à blockchain. Esse processo de tentativa e erro consome energia elétrica.

No caso do algoritmo SHA-256 subjacente ao Bitcoin, um hash é uma string contendo 256 bits de uns e zeros, geralmente mostrada em 64 hexadecimais. A função SHA-256 converte qualquer informação de qualquer comprimento nesta saída de string fixa de 256 bits que não pode sofrer engenharia reversa.

Essa é a razão pela qual os mineradores de bitcoin precisam calcular os hashes como saídas que correspondem às entradas subjacentes (histórico de transações).

É importante pontuar que os mineradores de bitcoin não resolvem “problemas matemáticos complicados” durante o hash, mas se envolvem em um processo de tentativa e erro. Este processo de tentativa e erro de hash consome energia elétrica

Este consumo requer trabalho, seja físico, dos que constroem a estrutura de mineração, tanto energético, pelas máquinas aplicadas à atividade. Por conta disso, o bitcoin é conhecido pelo algoritmo de consenso chamado "Prova de trabalho".

A taxa na qual os mineradores realizam essa tarefa é chamada de "taxa de hash", normalmente medida como terahash por segundo, ou seja, quantos trilhões de códigos por segundo são testados. Este indicador acaba funcionando também como um medidor da atividade de mineração.

Como vemos, a atividade de mineração permanece em ascensão, com taxa de hash total cada vez maior, indicando maior poder computacional aplicado à validação e produção de blocos na rede.

A dificuldade de encontrar o hash correto é ajustada para garantir que o tempo para encontrar um hash permaneça em aproximadamente 10 minutos. Este mecanismo é chamado de "ajuste de dificuldade".

Este recurso de segurança importante do algoritmo Bitcoin aumenta ou diminui a dificuldade de encontrar o hash correto. Isso garante que, com o aumento do poder computacional da rede Bitcoin, o tempo para encontrar um hash permaneça constante. Isso também garante que mineradores hostis individuais não possam alterar o histórico de transações e comprometer a blockchain.

Para que tudo funcione ininterruptamente, os mineradores de bitcoin são incentivados economicamente através do subsídio de bloco (emissão de novas unidades) e taxas de transação. Eles também cooperam em "pools de mineração" para agregar suas taxas de hash e compartilhar recompensas potenciais.

A economia da mineração debitcoin incentiva toda a rede de mineradores a aumentar a eficiência computacional e buscar constantemente fontes de energia de baixo custo. Isto ocorre pela alta competitividade da indústria, que, como vimos, permanece em crescimento.

Consumo de Energia: Uma Perspectiva

Em 2017, o Fórum Econômico Mundial previu que a mineração de bitcoin consumiria tanta energia quanto os EUA em 2019 e tanto quanto o mundo inteiro em 2020.

Felizmente, essa previsão exagerada não se concretizou e hoje, a mineração de bitcoin consome aproximadamente 0,07% do consumo global de energia e responde por apenas 0,06% do total global emissões.

O consumo absoluto de energia não é, por si só, uma coisa ruim. A ação humana geralmente consome energia física, e a história econômica moderna é uma lição na utilização de fontes de energia concentradas e eficiência tecnológica que levou a padrões de vida mais elevados.

O consumo de energia do Bitcoin é, na verdade, menor do que o dos sistemas monetários e de pagamento tradicionais que busca ultrapassar. Tanto a mineração de ouro quanto o sistema financeiro clássico consomem uma quantidade maior de energia do que a mineração de bitcoin.

A mineração de ouro, por exemplo, é uma das indústrias mais destrutivas do mundo, com impactos negativos significativos no meio ambiente e na saúde humana.

Entretanto, é importante lembrar que as comparações feitas nem sempre são justas. Consumo de energia é uma variável diretamente correlacionada com o nível de desenvolvimento econômico de países e setores.

Por exemplo, datacenters globais sozinhos consomem cerca de 191 TWh em eletricidade por ano, o que é cerca de 1,7 vezes a quantidade de mineração de bitcoin. Mesmo assim, não há campanhas ambientalistas contra estas estruturas, pois há consciência da sua importância.

Conforme o estudo "Bitcoin: Cryptopayments Energy Efficiency" de Khazakka (2022), considerando todos os aspectos do sistema financeiro clássico, como caixas eletrônicos, impressão e cunhagem de notas e moedas bancárias, deslocamento de funcionários do banco etc., o sistema financeiro clássico consome cerca de 28 vezes mais energia do que a mineração de BTC.

No momento da redação deste artigo, o CCAF (Cambridge Centre For Alternative Finance) estima o consumo global de energia de mineração de bitcoin em 136 TWh por ano.

Outras alternativas de rastreamento são fornecidas pelo portal Digiconomist que, no momento da redação deste artigo, estima o consumo de energia da mineração global de bitcoin em 106.57 TWh por ano.

A Sustentabilidade da Mineração de Bitcoin

A indústria de mineração de bitcoin é reconhecida como um dos setores mais sustentáveis globalmente em termos de sua matriz energética.

A quantidade de fontes de energia renovável usadas na mineração de bitcoin aumentou significativamente, especialmente desde a proibição da mineração de criptomoedas na China em maio de 2021.

Além disso, esta atividade não produz emissões de carbono diretamente e é semelhante à operação de um veículo elétrico. Portanto, é mais importante focar nas fontes de energia do que no consumo absoluto de energia per se.

O Bitcoin Mining Council (BMC) estima que o uso de energia sustentável na mineração de bitcoin aumentou significativamente desde a proibição da mineração na China e atualmente está acima de 50%.

Além disso, os dados mostram um aumento contínuo na eficiência energética da mineração ao longo do tempo.

Comparado a outras indústrias e empresas, a mineração de bitcoin parece ser uma das atividades econômicas mais sustentáveis. Se fosse uma empresa DAX, estaria entre as 5 mais sustentáveis com base apenas na combinação de energia de zero emissão.

Aspectos Sociais e de Governança

A discussão sobre o consumo de energia da rede Bitcoin geralmente ignora os benefícios que vêm com uma adoção mais ampla da tecnologia.

A mineração de Bitcoin não só processa transações atuais, mas também protege o registro de todas as transações passadas. Isso resulta em uma rede mais segura e eficiente, que pode suportar um número crescente de transações.

Além disso, a natureza descentralizada do Bitcoin oferece oportunidades financeiras em regiões onde o acesso a serviços bancários tradicionais é limitado.

A governança do Bitcoin é descentralizada e transparente, com decisões tomadas por consenso entre os participantes da rede. Isso contrasta com os sistemas financeiros tradicionais, onde a governança é muitas vezes opaca e centralizada.

Os sistemas monetários tradicionais baseados em moedas fiduciárias, como o dólar americano ou o euro, que podem ser criados à vontade, são geralmente caracterizados por bolhas recorrentes de preços de ativos e crises bancárias sistêmicas causadas por uma extensão excessiva de crédito.

Bolhas insustentáveis de preços de ativos e constantes crises bancárias sistêmicas geralmente levam a graves recessões com contrações significativas no crescimento do PIB que, por sua vez, leva a aumentos significativos no desemprego, falências, divórcios e suicídios.

Portanto, existem custos sociais e econômicos significativos associados a ciclos recorrentes de expansão e contração monetária inerentes ao sistema de moeda fiduciária.

Este padrão de crises bancárias se tornou evidente após o pacto de Bretton-Wood que acabou com a convertibilidade do dólar com o ouro. Neste período, surgiu a economia fiduciária que conhecemos hoje.

Junto dela, também veio o constante aumento de preços de bens e serviços, causados pela inerente expansão monetária e criação de dívida, que são partes estruturais deste sistema.

A inflação é comparável a um imposto adicional sobre a riqueza e a renda da sociedade. Na verdade, uma inflação de apenas ~7% a.a. implica que o poder de compra já cairá pela metade após aproximadamente 10 anos, mantendo o resto constante.

Esta é uma das razões pelas quais os bancos centrais têm visado taxas positivas, mas relativamente baixas de inflação. Além disso, os sistemas fiduciários são geralmente inclusivos para o público em geral, necessitando apenas uma conta bancária.

No entanto, sabemos que em muitos países menos desenvolvidos ainda há uma grande parcela da população que não possui acesso bancário.

Assim, o bitcoin se torna não apenas uma ferramenta de transação monetária, mas um meio de acesso ao sistema financeiro e de conquista de maior liberdade individual, especialmente em locais onde a dificuldade de acesso bancário é proposital.

Mesmo assim, existem inúmeros projetos estatais em desenvolvimento que visam manter este sistema financeiro tradicional em funcionamento. As moedas digitais de bancos centrais (CBDC) são formas de perpetuar a emissão de dívida desenfreada, a centralização de decisões e a expansão monetária constante.

Entretanto, é importante deixar bastante claro as diferenças entre moedas de bancos centrais e o bitcoin. Trouxemos na tabela acima estas características evidentes.

Conclusões

Há muitos equívocos sobre o consumo absoluto e relativo de energia na mineração de bitcoin. Este artigo buscou esclarecer que o consumo absoluto de energia do Bitcoin é menor do que os sistemas monetários e de pagamento tradicionais.

A matriz energética da indústria de mineração de bitcoin é uma das mais sustentáveis do mundo, e a tecnologia tem o potencial de trazer benefícios tanto sociais quanto ambientais.

É crucial para as organizações ambientais reconhecerem o papel substancial do Bitcoin na obtenção de emissões zero e na mitigação das externalidades negativas associadas ao sistema monetário fiduciário atual.

Em suma, a mineração de BTC contribui para benefícios tanto sociais quanto ambientais, justificando seu consumo de energia. A adoção de práticas sustentáveis e a busca contínua por eficiência energética garantem que a mineração de bitcoin continue a ser uma parte vital e responsável do ecossistema financeiro global.

Assim como, além de ser apenas um processo técnico; é uma inovação revolucionária que desafia os sistemas financeiros tradicionais e promove a sustentabilidade.

Através de uma compreensão clara e objetiva dos aspectos ESG do Bitcoin, podemos apreciar o valor e o potencial desta criptomoeda como uma força positiva para a economia global e o meio ambiente.

Que, por sua vez, além de ser sustentável, também permite a evolução do sistema financeiro, aumento da liberdade individual e a estruturação de uma sociedade mais descentralizada.


‌‌


As previsões ou afirmações feitas neste relatório não fazem quaisquer garantias, representações ou endossos expressos, ou implícitos de decisões de investimentos tomadas pelo leitor. Eventos passados não são garantias de acontecimentos futuros e o leitor deve ser o único responsável pelas suas próprias decisões de investimentos. O BlockTrends não poderá se responsabilizar por quaisquer perdas ou prejuízos decorrentes das decisões de investimento tomada com base na informação apresentada no BlockTrends Research. Todo o material apresentado é de cunho educativo e informativo e não representam recomendações expressas de compra, venda ou qualquer negociação em bitcoin, ou outro criptoativo. Ao utilizar este relatório o leitor reconhece as isenções de responsabilidade citadas acima.

Veja os comentários

Assine o BlockTrends | Research para poder visualizar e comentar.

Inscreva-se já